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sábado, 11 de junho de 2016

                                               CIDADE FAROESTINA

Gandhi desprezava a chamada civilização da época atual. “É apenas uma camada superficial que encobre um coração feroz... Não se importa nem com a moralidade nem com a religião.” Sua definição da civilização verdadeira: ”Boa conduta” cita Henry Thomas.
Quem entende de boa conduta? Nós, que vivemos cercados de descaso, de corrupção, de assombros, de afrontas diárias?
Pois é! E com tudo isso estamos ficando famosos. Não há uma semana em que a nossa cidade de Machado não anuncie um assassinato, um roubo de carro, um assalto à mão armada. Isso tudo são fatos corriqueiros já por aqui.
A televisão já ironiza quando se refere a Machado e também já fala em manter um plantão aqui, para facilitar seu trabalho, pois, antes mesmo de chegar ao local de saída, outra chamada os faz voltar.
Como podemos ver, a fama nem sempre é bom sinal: Machado, famosa, porque está batendo recorde em outras cidades nos fatos negativos,nas atrocidades que estão governando a nossa civilização moderna.
Sempre gostei de filmes faroeste: davam-me prazer  assistir a eles pela TV e ver o “mocinho” chegar na hora certa e acertar os bandidos em “Rastros de Ódio”, “A Vingança de um Pistoleiro”, “ Promessa de Sangue”, “ O Dólar Furado”, a Série “Bonanza”, entre muitos outros.
Não preciso mais de TV para isso: não há mais distância entre realidade e ficção. Tais filmes andam acontecendo por aqui, (embora não deem nenhum prazer), debaixo dos nossos olhos, sem nenhum diretor cuidando de seu encaminhamento, e são de graça, mas, infelizmente, nunca aparece o “mocinho” para salvar ninguém.
Naqueles, os da TV, homens adultos eram seus personagens, trabalhando por uma carreira artística, para o sustento de suas vidas e de suas famílias; nestes, os de nossa cidade, são jovens, adolescentes que, matam por vingança, por uns gramas de droga, por vontade de mostrar poder.
Andam pelas ruas, esquecidos de si mesmos e de suas famílias que não sabem mais o que fazer por eles e, para eles, matar ou morrer, pouco importa.
Não buscam títulos de heróis, mas estão convencidos de que enchem de medo as ruas da cidade; têm pensamentos possuídos por forças maiores que os fazem acreditar que têm poder.
E nós, do outro lado, acreditamos que têm tal poder, já que estamos nos trancando cada dia mais em nossas casas, tentando resguardar-nos de ataques violentos ou de balas perdidas.
Alguém sabe o que fazer? Rezar adianta? Trancar todas as portas, colocar mais grades, alarmes e deixar acontecer do lado de fora, é isso?
Essa é a civilização moderna.
Alberti Cliffe nos conta que no Canadá Ocidental, há grandes florestas de árvores enormes, algumas das quais com milhares de anos de idade. Resistem a grandes tempestades, mesmo a terremotos e ventos furiosos. Entretanto, morrem frequentemente por causa de um pequeno inseto que penetra debaixo da casca e lentamente suga-lhes a seiva vital.
Assim é a preocupação: mina nossa vitalidade e pode nos trazer moléstias sérias. Ficaremos à espera das grandes moléstias, trancados em casa, destruídos em nossa vitalidade, sentindo horror ante os fatos e dizendo constantemente o mesmo chavão: Que Deus tome conta de todos nós?
Segundo o profeta Isaías o mundo melhor seria este: “ E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo se deitará com o cabrito, e o bezerro e o filhote do leão e o da ovelha viverão juntos; e um menino os guiará... porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar. E as nações converterão as suas espadas em relhas de arados, e as lanças em foices: não levantará a espada nação contra nação, nem aprenderão mais a guerrear.”
Essa foi a formosa visão que Isaías legou a sua geração. E como o recompensou a sua geração? Como as gerações costumam recompensar os seus profetas. “Cortaram-no em dois, relatam os cronistas, com uma serra”.
Será que a civilização moderna se modernizou demais?
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*Olga Caixeta Vilela é professora de Português e membro da Academia Machadense de Letras.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

PROFUSÕES (Olga Caixeta)



PROFUSÕES
(Olga Caixeta)

Todas as fraquezas e todas as misérias humanas vieram à tona e cobriram a tela da TV por um longo tempo e todos nós pudemos assistir, comparar, assumir em nossas vidas muitas passagens que, certamente, fizeram parte do cotidiano imprevisível que assombra os nossos melhores momentos.
Notamos durante muito tempo o quanto nos parecem longos os passos incertos que tiram nossos pés do chão, derrubam o nosso espírito e consomem nossos corações.
É até engraçado pensarmos que somos todos personagens de infinitas passagens, sem nos darmos conta do que estamos vivendo e, infinitas são também as vezes que fazemos comentários sobre o que assistimos sem percebermos a cumplicidade entre as situações.
Tudo é tão igual e algumas vezes o que é real supera o que se apresenta na tela.
Estou aqui falando da novela das nove “Amor à Vida” e dos seus últimos capítulos.
Depois de centenas de atropelos, traições, mortes, roubos, brigas, separações aconteceu o inesperado: o amor representando a única possibilidade de o ser humano ser feliz, sentir-se bem consigo mesmo e justificar a sua relação com os outros.
O que corre na net é o beijo dos homossexuais e pude ler comentários dizendo que “ até que enfim a televisão mostrou estar quebrando tabus e etc...”
Não quero me ater ao fato, mas àquilo que foi o fechamento: a cumplicidade entre pai e filho e o desvendamento do sentimento escondido e maltratado no coração dos personagens, César e Félix.
Se prestarmos atenção, no decorrer dos capítulos havia uma luta interior no personagem Félix, o filho, pelo fato de não ser reconhecido, não ser amado.

Tal fato fez dele uma criatura sórdida, má, inconsequente e, só depois de ter passado por situações mais difíceis também para ele, a questão econômica, e encontrado uma mão estendida, não para oferecer dinheiro, mas carinho, atenção, amor e que exigiu dele uma determinação de atitude refletida, foi capaz de mudar.
Mudou e mudou tanto que foi capaz de reconhecer suas fraquezas e entregar-se de vez à mostra de seus sentimentos.
O fato pode parecer bobo para muitos, mas para mim foi surpreendente. Exalou um certo ar de sublimidade que intimidou todas as outras passagens de desafetos e asperezas.
Li uma mensagem do Papa Francisco para o XXII Dia Mundial do Enfermo 2014 na qual ele diz: “ Quando nos aproximamos com ternura daqueles que precisam de cura, levamos a esperança e o sorriso de Deus às contradições do mundo”.
Ele fala aqui da enfermidade do corpo e eu falei antes da enfermidade da alma. Todos nós sabemos que nenhuma das duas situações é melhor ou pior, mas é certo que tanto uma quanto a outra são dizimadoras do ser humano.
O final da novela foi providencial para falar de um assunto sobre que muita gente foge: coisas do coração que descontrolam sobremaneira nossos pensamentos e nossa força de ação.
De forma geral, quando o assunto é o próprio EU intimidamo-nos, pois o maior costume de todos nós é expor o Outro e escondermo-nos atrás de nós mesmos.
Achamos todas as lições de amor bonitas, mas não expomos a nossa ou nem nos damos conta de que poderíamos viver uma. A sensibilização acontece-nos e passa como um vento lá fora.
Sofremos por causas infinitas e guardamos a sete chaves toda a ira que corrói a nossa vida, pois acostumamo-nos ao espírito de vingança que nos traz a sensação de donos do poder.
Apesar de todos os escrachos que “Amor à Vida” deixou rolar por um bom tempo, o seu final garantiu-nos um tanto de emoção, algumas lágrimas e muitos comentários. Não importa que tenha sido sobre o beijo homossexual, já que ele é amor.
Se amar é em si mesmo um estado de leveza espiritual só ele, o amor, será capaz de lavar todas as manchas que encobrem o favorecimento de uma boa ação.
Falar de amor no facebook não é a mesma coisa que segurar as mãos de alguém, não é a mesma coisa que desvendar no nosso coração a força da vida.
Vivemos uma época difícil, sem muitas explicações ou respostas, uma época de relatividade sem mesmo entendermos bem seu significado, mas suponho que qualquer ser humano responderia para si mesmo sobre seus sentimentos.
O que eu realmente sinto quando sinto algo infinitamente forte brotar em mim e eu sei que posso responder com certeza: É Amor?
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*Olga Caixeta é professora de Português, poeta e membro da Academia Machadense de Letras


Foto fonte: http://veja.abril.com.br/blog/quanto-drama/tag/felix/page/3/





segunda-feira, 28 de outubro de 2013

ORQUESTRA MONOFÔNICA (Olga Caixeta



Não sei se para ouvir essa orquestra será necessário receber um convite. Penso que não. Quem tem ouvidos para ouvir que ouça.
Todos os dias alguém dá o tom e a música começa, mas não é nenhum Mozart ou Strauss com sua belíssima “ Danúbio Azul”. São as graciosas cigarras que se agrupam e entoam o seu canto.
Fico imaginando o regente dessa linda orquestra que parece o sambinha de uma nota só.
Lembro-me, então, da antiga historinha da Cigarra e da Formiga que tanto nos contaram quando éramos crianças ainda, com o intuito moralizante: enquanto as formigas trabalhavam exaustivamente, armazenando alimento para o inverno, as cigarras só cantavam, acreditando estarem alegrando os céus com um “Hino ao Amor” e agradando a todos os ouvintes.
Se há tanto tempo não faziam nada e só queriam mesmo cantar para passar o tempo, habituaram-se à rotina cantante e, segundo o velho ditado, “quem só aprendeu a fazer nada, depois de ter aprendido tal ofício, dificilmente se livrará dele”.
E sabem do melhor?  Esse grito todo que ouvimos é dos machos que gritam assim para atrair as fêmeas, e elas têm um canto muito baixo... depois dizem que as mulheres é que falam muito....
E quanto as suas contraparentes, as pobres formigas? Além de trabalharem tanto não tinham outra escolha a não ser ouvir o canto exasperante das cigarras.
Hoje, não ouço mais as histórias; vejo-as no real. As formigas, mostrando-se cumpridoras de seu dever, entram em nossas casas, vasculham doces, bolos e gostam até de pizza.
Nada lhes passa despercebido e, não adianta querer acabar com elas. Você mata umas e outras aparecem em dobro como se brotassem uma após a outra num piscar de olhos.
As cigarras não ficam atrás. Deixe alguma janela aberta no cair da tarde e você vai ouvir bem de perto uma das participantes da grande orquestra fazendo solo no mais alto grau, bem ao seu ouvido.
Elas se agrupam nas árvores... seu lugar preferido. Ah! E não passe por baixo, pois é bem possível você receber umas boas gotas de suas necessidades caírem-lhe pelos braços. Sem nenhum acanhamento, elas brincam, cantam e se enveredam por espaços que não fazem parte do seu habitat. Vez que outra morrem;  não conseguem se libertar de algumas quedas.
Quantas seriam necessárias para fazer um barulho tão alto? Quem ouve pensa que muitas, mas uma só já mostra uma potência de garganta que ensurdece.
Dizem que cantam para chamar a chuva, mas será que essa chuva fica tão longe assim para terem de gritar o dia inteiro? Santo Deus!
Dizem também que cantam até estourar; aí quedam-se. Por que tanto masoquismo? Será que têm consciência do que fazem?
E quando vem a chuva, onde será que se escondem? Ou ficam se molhando ao sabor do vento?
Não sei se alguém já procurou saber sobre isso; já li que entre os insetos, as cigarras são as únicas que produzem o som estridente que todos conhecem. Algumas das espécies maiores conseguem atingir os 120 decibéis com facilidade, enquanto outras menores realizam a proeza de alcançar uma sonoridade tão aguda que seu canto simplesmente não é percebido pelo ouvido humano, embora cães e outros animais possam chegar a uivar de dor por causa dele.
As cigarras estão presentes em quase todas as regiões do mundo, tanto em climas quentes como frios e existem mais de 1 500 tipos diferentes delas.  Normalmente, são encontrados em regiões de florestas tropicais, mas também podem ser encontrados em outros tipos de vegetações.
Seu desenvolvimento completo pode durar de 1 a 17 anos. As ninfas vivem enterradas até a maturação, enquanto os adultos habitam árvores e plantas, alimentando-se da seiva. Assim como os cupins, as cigarras estão entre os insetos mais longevos do planeta.
Sabemos ainda que sua importância no ecossistema é positiva, por um lado, por servir de alimento para os predadores e, negativa, por outro, porque constitui-se em pragas de algumas culturas.
Mas, prefiro ficar só com as lembranças da historinha que remete a um bom tempo da áurea vida que não volta mais. E como também gosto de cantar envolvo-me no tom e dou o meu troco. Não a ponto de estourar. Mas canto.

*Professora de Português e Membro da Academia Machadense de Letras

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O CRAQUE (Olga Caixeta)





Reli um texto do Affonso Romano de Sant´Anna, do Caderno Cultura do Jornal Estado de Minas de Junho de 2010, com este mesmo título: O Craque. E era tempo de Copa.
O autor começa o assunto perguntando: “ O que é um craque? O que tem o craque que o não craque não tem?”
Estamos vivendo o momento da Copa das Confederações e, por esta razão falo do mesmo assunto. Não sou amante do futebol, mas como o controle da TV fica sempre à mercê de quem gosta, acabo algumas vezes assistindo. E digo, até que não é tão ruim.
Mas... o que nos estão prometendo os pés dos nossos craques? Estaremos seguros com os fortes pés do nosso craque Neymar? Vamos esperar.
Romano diz que o craque não procura a bola; ela lhe vem aos pés e ainda diz que a galera gosta mesmo é do craque que, mesmo sabendo que o é, finge que é como os demais.
Parece-nos que, nesse sentido, Neymar “ tá dentro”. Até hoje tem mostrado simplicidade nos gestos e no trato: vamos ver o que acontece com sua ida à Europa.
E os demais jogadores da seleção, os que fazem a tabela e colocam a bola nos pés daquele que faz o gol, não são craques? 
Por que, enquanto uns poucos valem milhões, outros tantos recebem tão pouco mérito?
Não me venham dizer que não sei o que estou dizendo, pois eu já sei o que sei e o que não sei. Faço considerações.Craque é o que faz gol, já que este é o objetivo do jogo, ganhar em gols. São eles, os gols, que rendem milhões e não um mero chute para esquerda ou para direita.
O Brasil começou bem com uma goleada de 3 X 0: os japoneses não abriram bem os olhos e a bola passou por baixo dos seus pés que são menos craques. Será que nós, brasileiros,vencemos porque somos mais craques ou porque  eles são menos?
Com estas alternativas, podemos ainda correr o risco, nos próximos embates, mas, se craque é craque, como explicar o paradoxo?
Em 2013 disputamos a Copa das Confederações que poderá ser apenas um ensaio para 2014. Tomara nosso ensaio seja venturoso para ganharmos novas esperanças para o futuro. Perder dentro da própria casa não é nada prazeroso e que nossos santos todos estejam acordados para empurrar a bola. Temos de pedir a eles também que ajudem os centroavantes, os laterais esquerda e direita, a retranca e o ataque a lançar bola e colocá-la nos pés daquele para quem a redondinha sempre corre: o craque.
É grande responsabilidade, mas não para isso que se gastam milhões?
E em cada época há um novo craque, sem dúvida.
Vejamos quantos pés abençoados já vieram depois de Pelé. E não intento fazer comparações, cada um tem seu estilo, cada um tem suas características próprias.
Se o que interessa é fazer gol, não podemos nos queixar, temos feito e mostrado que o Brasil é um país abençoado por Deus.
E no segundo jogo que o Brasil joga, já temos uma nova mostra. Neymar corre, Neymar chuta, Neymar faz gol. Neymar  é craque. E está recebendo já uma grande coroa, repassada de tempos em tempos para fazer história.
Pés que galgam os campos com ligeireza, determinação e sabedoria. Tudo isso caracteriza o craque e descaracteriza os outros dez pares de pés que estão no campo para passar a bola. Craque é um só, pois, somente alguns se tornam estrela, mesmo todos tendo, também, o seu brilho.
Fecho meu pensamento como Romano: quem tem craque vai às finais, quem tem craque ganha à Copa em todo tempo e lugar.

*Olga Caixeta é membro da Academia Machadense de Letras